17 janeiro 2014

[1º Capitulo] A probabilidade estatística do amor á primeira vista - Jennifer E. Smith

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Apresentação: Então pessoal, o primeiro capitulo é uma coisa que eu criei, em que toda a terça eu vou postar o ''primeiro capitulo'' de um livro, afim de ajudar nossa amiga Karen, e deixar você leitor, entretido.

  O primeiro capitulo dessa semana é do livro A probabilidade estatística do amor á primeira vista (APEAPV) da Jennifer E. Smith. Vamos lá?



1
18h56 Hora da Costa Leste
                                                             23h56 Hora de Greenwich


  

Aeroportos são verdadeiras câmaras de tortura quando se tem claustrofobia.

  Não apenas por causa do iminente perigo — àcamos presos como sardinhas e somos
catapultados pelo ar dentro de um tubo de metal —, mas também por causa dos
terminais, da quantidade de pessoas, da confusão que turva a vista, do zumbido que
atordoa, de todo o movimento e do barulho, do frenesi e do vozerio, tudo isso selado
por janelas de vidro, como se fosse uma monstruosa fazenda de formigas.

  Isso é apenas uma das várias coisas que Hadley está tentando ignorar enquanto
espera no balcão de embarque. Está àcando escuro e o avião já deve estar sobrevoando
o Atlântico. Ela pode sentir alguma coisa em seu interior se desfazendo, como o ar que
sai lentamente de um balão. Parte da sensação se relaciona ao voo muito próximo e
parte ao aeroporto em si, mas o maior problema — o maior de todos — é saber que vai
se atrasar para um casamento ao qual nem queria ir. Essa ironia do destino a faz querer
chorar.

  Os atendentes da companhia aérea se reuniram atrás do balcão e olham para ela
com impaciência. A tela atrás deles já anuncia o próximo voo do JFK para Heathrow,
um voo que só sairia em três horas. Fica cada vez mais claro que é Hadley quem está
impedindo que o expediente da equipe acabe.


  — Lamento, senhora — diz uma das atendentes, disfarçando um suspiro. — Não há
nada que possamos fazer, a não ser colocá-la em um voo mais tarde.

  Hadley concorda. Ela passou as últimas semanas desejando secretamente que alguma coisa desse tipo acontecesse, embora as cenas que imaginou fossem mais dramáticas:
greve nacional dos aeroviários, uma chuva de granizo épica, um caso raro de gripe ou
de sarampo que a impedisse de viajar. Seriam razões perfeitamente aceitáveis para que
não visse o pai caminhando pelo corredor da igreja para se casar com uma mulher que
ela nunca havia encontrado.

  No entanto, atrasar-se quatro minutos para o voo soava um pouco conveniente
demais, até suspeito, e Hadley não sabe ao certo se seus pais — tanto o pai quanto a
mãe — entenderiam que não foi culpa sua. Na verdade, isso provavelmente faria parte
da pequena lista de tópicos sobre a qual os dois concordavam.

  Foi ideia dela faltar ao ensaio para o jantar e chegar em Londres na manhã do
casamento. Hadley não via o pai havia mais de um ano e não achava que seria capaz de
sentar em um salão com todas as pessoas mais importantes para ele — amigos e colegasde trabalho, o mundinho que construiu no outro lado do oceano — enquanto brindavam a sua saúde, felicidade e vida nova. Se pudesse decidir, nem iria ao
casamento, porém, essa decisão não foi negociada.

  — Ele ainda é seu pai — dizia a mãe como se ela tivesse esquecido. — Se você não
for, vai se arrepender depois. Sei que é difícil imaginar isso quando se tem 17 anos, mas
acredite em mim. Um dia você ainda vai se arrepender.

  Hadley achava que não.

  A atendente digita no teclado do computador com certa ferocidade, batendo nas
teclas e fazendo barulho ao mascar o chiclete.

  — Você está com sorte — diz, balançando as mãos no ar. — Posso colocá-la no voo
de 22h24. Assento 18A. Janela.
Hadley fica até com medo de perguntar, mas arrisca mesmo assim.

  — Chega que horas?

  — Chega 9h54 — diz a atendente. — Amanhã de manhã.
Imagina a caligraàa delicada no grosso convite maràm de casamento, que estava há
meses em cima da cômoda. A cerimônia começa no dia seguinte ao meio-dia, o que
signiàca que, se tudo sair conforme planejado — o voo e a alfândega, os táxis e o
trânsito, se tudo for perfeitamente coreografado —, ainda há uma chance de conseguir
chegar a tempo. Uma pequena chance.

  — O embarque começa neste portão às 21h45 — comunica a atendente, atendente, entregandolhe
vários papéis organizados num pequeno envelope. — Tenha um excelente voo.

  Vai até as janelas e examina as fileiras de cadeiras cinza. A maioria está ocupada e
as que restam estão com o estofado amarelo à mostra, como ursinhos de pelúcia
descosturados. Ela coloca a mochila sobre a mala de mão, pega o celular e procura o
número do pai na lista de contatos. Está registrado como “O professor”, apelido que
ganhou da filha há um ano e meio, quando anunciou que não voltaria a Connecticut;
depois disso, a palavra pai acabou virando um incômodo sempre que ela abria o
celular.

  Seu coração dispara com o toque do telefone; ele liga regularmente, mas ela quase
nunca liga de volta. É quase meia-noite na Inglaterra, e, quando finalmente atende, a
voz do pai está rouca e lenta de sono ou de álcool — talvez de ambos.

  — Hadley?

  — Perdi meu voo — diz com o tom seco que naturalmente aparece quando fala com
o pai. É efeito do desgosto que sente por ele.

  — O quê?

  Suspira e repete a informação.

  — Perdi o voo.

  Ao fundo, Hadley escuta Charlotte murmurando, e alguma coisa queima dentro
dela, um pequeno surto de raiva. Apesar dos e-mails carinhosos que a mulher mandou
desde o noivado — eram cheios de planos para o casamento, fotos da viagem a Paris e
pedidos para que não ficasse distante, todos assinados com um entusiasmado “:-)))”
(como se apenas uma carinha feliz não bastasse) —, há exatamente um ano e 96 dias,
ela decidiu que ia odiar aquela mulher, e um convite para ser madrinha não era o
suficiente para mudar isso.

— Bem — diz seu pai —, conseguiu outro voo?
— Sim, mas só chega às dez.
— Amanhã?
— Não, hoje — responde. — Vou viajar de cometa.
O pai ignora o comentário.
— É muito tarde. Muito perto da cerimônia. Não vou conseguir buscar você —
informa e cobre o telefone para falar com Charlotte. — Podemos pedir para a tia
Marilyn ir te pegar.
— Quem é tia Marylin?
— É a tia da Charlotte.
— Tenho 17 anos — lembra Hadley —, com certeza consigo pegar um táxi sozinha
até a igreja.
— Não sei — diz o pai —, é a sua primeira vez em Londres... — Ele afasta o
telefone e tosse, limpando a garganta. — Você acha que sua mãe concordaria com isso?
— Mamãe não está aqui — responde Hadley. — Acho que só participou do primeiro
casamento.
Silêncio no outro lado da linha.
— Vai dar tudo certo, papai. Encontro você na igreja amanhã. Não devo me atrasar
tanto assim.
— Está bem — responde o pai com carinho. — Estou com saudade.
— Eu sei — responde, sem conseguir dizer o mesmo. — Até amanhã.

  Só se lembra de que devia ter perguntado sobre o jantar de ensaio depois que desliga.
Na verdade, não está tão curiosa assim.

  Por um longo tempo, ela fica parada com o telefone na mão, tentando não se
apavorar com o que a espera no outro lado do oceano. O cheiro de manteiga que vem
de uma barraca de pretzel está deixando Hadley enjoada. Queria se sentar, mas aquela
área está lotada de passageiros. É o fim de semana do feriado de Quatro de Julho. As
telas de previsão do tempo mostram mapas com tempestades se aproximando do

  Centro-Oeste. As pessoas já começam a se acomodar em vários cantos do terminal
como se fossem morar lá para sempre. Há várias malas ocupando assentos, famílias
acampadas, caixas gordurosas de lanches do McDonald’s. Ela passa por um homem
que está dormindo em cima da mochila. Sente o chão e as paredes muito próximas e a
pressão da multidão. E tem que se lembrar de respirar fundo.

  Vê um assento vazio e corre para lá, movendo a mala de rodinhas por entre um mar
de sapatos. Nem quer pensar em como o vestido de seda lilás vai estar amarrotado
quando chegar em Londres. No plano original, ela teria algumas horas antes da
cerimônia, mas agora precisaria se apressar para chegar à igreja na hora. Embora esta
não seja sua maior preocupação no momento, é engraçado imaginar as amigas de
Charlotte horrorizadas; entrar na igreja sem o cabelo feito, com certeza, é uma
catástrofe para elas.

  A palavra arrependimento não descreve o que sente em relação a ter aceitado ser
madrinha de casamento, porém, ela não aguentava mais os e-mails incessantes de
Charlotte e os pedidos infinitos do pai, sem mencionar que sua mãe
surpreendentemente apoiou a ideia.

  — Sei que ele não é a pessoa que você mais ama no mundo neste momento — disse
ela —, e, com certeza, também não é a que mais amo, mas você quer mesmo ver o
álbum de fotos depois, talvez com seus filhos, e se arrepender por não estar lá?
Não fazia muita diferença para Hadley, mas ela entendia o argumento. E era mais
fácil deixar todo mundo feliz, mesmo que, para isso, precisasse encher o cabelo de
laquê, usar um salto alto desconfortável e posar para fotos após a cerimônia. Quando
os outros convidados do casamento — as amigas de Charlotte com trinta e poucos anos
— ficaram sabendo que uma adolescente americana tinha sido incluída no grupo de email
pelo qual se comunicavam, Hadley foi prontamente recebida com uma enxurrada
de exclamações. E mesmo que não conhecesse Charlotte e tivesse passado o último ano
e meio fazendo de tudo para que isso não mudasse, já sabia suas preferências em
relação a vários tópicos acerca do casamento — questões importantes como a escolha
entre sandália e sapato fechado, que tipo de flor colocar no buquê e, o pior e mais
assustador de tudo, as preferências de lingerie para o chá de panela, ou, como chamam
na Inglaterra, o chá de cozinha. A quantidade de e-mails que um casamento conseguia
gerar era incrível. Hadley sabia que a maioria das mulheres era do trabalho de
Charlotte, na galeria de arte da universidade de Oxford, mas mal dava para acreditar
que tivessem um emprego. Combinaram de conhecê-la na manhã do casamento, no
hotel, mas teriam que fechar seus vestidos, pintar os olhos e enrolar os cabelos sem ela.

  Lá fora, o céu está rosado e as pequenas luzes que delineiam o contorno dos aviões
começam a ganhar vida. Hadley vê seu reflexo no vidro: cabelos louros e olhos grandes,
a expressão ansiosa e fatigada, como se a viagem já tivesse acontecido. Ajeita-se na
cadeira entre um homem mais velho que vira as páginas de um jornal com tanta força
que as folhas quase saem voando e uma mulher de meia-idade, com uma blusa de gola
rulê com um gato bordado, que está tricotando alguma peça ainda sem formato.

  Mais três horas, pensa e abraça a mochila. Chega à conclusão de que não vale a pena
ficar contando os minutos para um evento temido; seria melhor dizer que faltam dois
dias. Em dois dias, estaria voltando para casa. Em dois dias, poderia fingir que isso
jamais aconteceu. Em dois dias, teria sobrevivido ao fim de semana que temeu por uma
eternidade.

  Arruma novamente a mochila no colo e percebe, um pouco tarde demais, que não
fechou o zíper até o fim. Alguns objetos caem no chão. Hadley pega o gloss primeiro,
depois, as revistas de fofoca, mas quando vai pegar o pesado livro preto que o pai lhe
deu, o garoto que está na cadeira oposta se levanta e o pega primeiro.

  Dá uma olhada na capa antes de devolver o livro, e ela percebe que ele reconheceu o
título. Demora alguns segundos para se dar conta de que o garoto deve ter achado que
ela é uma dessas pessoas que lê Dickens no aeroporto. Hadley quase explica para ele
que não; na verdade, tem o livro há anos e nunca nem o abriu. Em vez de dizer isso,
sorri e olha para a janela a fim de evitar qualquer tentativa de conversa.

  Ela não está com vontade de bater papo, nem mesmo com alguém tão bonito quanto
ele. Não queria nem estar ali. O dia que a espera é como um ser vivo e pulsante, uma
coisa indo em sua direção em alta velocidade; em breve, a coisa vai nocauteá-la. O
medo de entrar no avião — e de estar em Londres — é físico e faz com que fique
inquieta, balance as pernas e fique mexendo nos dedos.

  O homem a seu lado assoa o nariz e, depois, volta a erguer o jornal. Hadley torce
para que não seja também o passageiro a seu lado no avião. Sete horas é muito tempo,
uma parte muito grande do dia, para ser deixada nas mãos da sorte. Viajar com alguém
desconhecido é uma ideia estranha, porém quantas vezes tinha voado para a Flórida,
para Chicago ou Denver na companhia de uma pessoa totalmente desconhecida, lado a
lado, ombro com ombro, pelo país afora? Viagens de avião são assim: você pode passar
horas conversando com uma pessoa sem nem saber seu nome, pode contar seus maiores
segredos e, depois, nunca mais vê-la.

  O homem se inclina para ler o jornal e seu braço toca o de Hadley. Ela se levanta
abruptamente e joga a mochila sobre o ombro. A área de embarque ainda está lotada.

  Olha para a janela e sente vontade de estar lá fora. Não sabe como vai conseguir ficar
sentada ali por mais três horas, mas a ideia de carregar a mala no meio daquela
multidão é estressante. Coloca a mala perto da cadeira para que ninguém se sente e fala
para a mulher de gola rulê:

— A senhora poderia dar uma olhada na minha mala? — pergunta. A mulher fica
segurando as agulhas de crochê e franze a testa.
— Você não devia fazer isso — diz enfaticamente.
— É só por um ou dois minutinhos — explica Hadley.
A mulher balança a cabeça como se não quisesse fazer parte das consequências do
ato de Hadley.
— Eu posso tomar conta — diz o garoto.

  Hadley olha para ele — olha de verdade — pela primeira vez. Seu cabelo é escuro e
meio grande demais, e há migalhas na frente da camisa, mas ele tem alguma coisa
interessante. Talvez seja o sotaque, que, com certeza, é britânico, ou a boca tensa,
evitando um sorriso. O coração dela bate mais forte. Ele olha para ela e para a mulher,
cujos lábios estão apertados em uma linha tensa, indicando um julgamento negativo.

  — Isso é contra a lei — diz a mulher e olha para dois seguranças em pé ao lado da
praça de alimentação.

  Hadley olha novamente para o garoto, que sorri.

  — Tudo bem — diz ela —, eu levo a mala. Obrigada mesmo assim.

  E começa a pegar as coisas. Coloca o livro embaixo do braço e a mochila sobre o
ombro. A mulher nem recolhe os pés para que ela movimente a mala. No final da área
de espera, o carpete sem cor termina e dá início ao chão de linóleo. A mala trava na
junção de borracha que une os dois pisos e, depois, balança de uma roda para outra.

  Quando Hadley tenta estabilizá-la, o livro cai de novo. Ela se abaixa para pegá-lo, mas
deixa o casaco de moletom cair.

  Só pode ser piada, pensa, soprando uma mecha de cabelo que está em seu rosto.
Arruma tudo e estica a mão para pegar a mala, mas não acha a alça. Ela se vira e fica
surpresa ao ver o garoto a seu lado. Ele está segurando a mala.

  — O que você está fazendo? — pergunta, olhando para ele.
  — Achei que precisava de ajuda.

  Hadley continua olhando.

  — E se eu andar com você, vou ajudar sem estar fazendo nada ilegal — observa com
um sorriso.

  Ela ergue as sobrancelhas e ele estica as costas, demonstrando certa insegurança. Ela
pensa na possibilidade de ele estar querendo roubar a mala, mas, se o caso for este, o
plano não é muito bom, pois só tem um par de sapatos e um vestido lá dentro, e ela até
ficaria feliz em se ver livre deles.

  Hadley fica lá parada, perguntando-se o que fez para merecer um guarda-costas. No
entanto, a multidão está cada vez maior, a mochila está pesada e os olhos do garoto
têm um quê de solidão, como se não quisesse ser abandonado naquele momento.
Hadley conhece esse sentimento. Depois de alguns segundos, ela concorda. Ele inclina a
mala sobre as rodinhas e começam a caminhar.

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